Seu coração dispara sem aviso. O ar parece faltar. Uma onda de terror toma conta do seu corpo e você tem certeza absoluta: “Estou tendo um ataque cardíaco. Vou morrer agora.” Mas então… passa. E você descobre que foi um ataque de pânico. Se isso já aconteceu com você, saiba: você não está sozinho. E não, você não está ficando louco.
Ataques de pânico afetam cerca de 11% das pessoas pelo menos uma vez na vida. São experiências aterrorizantes, mas tratáveis. E entender o que está acontecendo é o primeiro passo para superá-los.
O que é um ataque de pânico?
Um ataque de pânico é um episódio súbito de medo intenso que desencadeia reações físicas graves sem que haja perigo real ou causa aparente.
Características principais:
- Surge de repente, do nada
- Atinge pico de intensidade em 10 minutos
- Dura entre 5-30 minutos (raramente mais)
- Deixa você exausto depois
- Pode acontecer durante o dia ou acordar você à noite
A sensação é tão intensa que muitas pessoas vão ao pronto-socorro pensando estar tendo um infarto. E essa confusão é completamente compreensível — os sintomas são assustadoramente parecidos.
Sintomas de ataque de pânico
Para ser considerado um ataque de pânico, você precisa ter 4 ou mais destes sintomas:
Sintomas Físicos
- Palpitações ou coração acelerado — parece que vai saltar do peito
- Sudorese intensa — mesmo em ambiente frio
- Tremores ou abalos musculares incontroláveis
- Falta de ar ou sensação de sufocamento — como se não conseguisse respirar
- Dor ou desconforto no peito — o motivo de tantos acharem que é ataque cardíaco
- Náusea ou desconforto abdominal
- Tontura, sensação de desmaio ou cabeça leve
- Calafrios ou ondas de calor
- Formigamento nas mãos, pés ou rosto
Sintomas Psicológicos
- Medo de morrer — certeza absoluta de que algo terrível está acontecendo
- Medo de perder o controle ou enlouquecer
- Desrealização — sensação de que nada é real
- Despersonalização — sentir-se desconectado de si mesmo
O pior: quanto mais você tem medo dos sintomas, mais intensos eles ficam. É um ciclo vicioso — o medo alimenta o pânico, que aumenta o medo.
Ataque de pânico x Ataque cardíaco: como diferenciar
A dúvida é legítima. Veja as diferenças:
| Ataque de Pânico | Ataque Cardíaco |
|---|---|
| Dor aguda, pontada no peito | Pressão, aperto no peito |
| Surge de repente, pico em 10 min | Piora gradualmente |
| Passa em 20-30 minutos | Dura mais de 5 minutos |
| Melhora com técnicas de respiração | Não melhora com respiração |
| Sem irradiação para braço/mandíbula | Dor pode irradiar |
| Mais comum em jovens | Mais comum após 40 anos |
Importante: Se você tem dúvida, vá ao médico. É sempre melhor descartar problemas cardíacos. Depois que um cardiologista confirma que está tudo bem, fica mais fácil reconhecer os ataques de pânico no futuro.
O que causa ataques de pânico?
Não há uma causa única. Geralmente é uma combinação de:
1. Fatores biológicos
- Genética: Se alguém na sua família tem, você tem maior risco
- Química cerebral: Desequilíbrio de neurotransmissores como serotonina e noradrenalina
- Amígdala hiperativa: A parte do cérebro que processa o medo está em modo de alerta constante
2. Fatores psicológicos
- Ansiedade generalizada: Preocupação crônica pode evoluir para ataques de pânico
- Eventos traumáticos: Abuso, acidentes, perda de entes queridos
- Estresse crônico: Pressão constante no trabalho, relacionamentos, finanças
3. Gatilhos ambientais
- Espaços fechados (elevador, metrô)
- Multidões
- Situações de avaliação (reuniões, apresentações)
- Uso de cafeína, álcool ou drogas
- Mudanças hormonais (gravidez, menopausa)
- Falta de sono
Ataque de pânico x Transtorno do pânico
Ter um ataque de pânico não significa que você tem transtorno do pânico.
Você tem transtorno do pânico quando:
- Tem ataques recorrentes (não apenas um)
- Vive com medo constante de ter outro ataque
- Evita situações ou lugares por medo de ter um ataque
- Isso atrapalha significativamente sua vida (trabalho, social, família)
Cerca de 2-3% da população desenvolve transtorno do pânico. Mas a boa notícia? É altamente tratável.
Como lidar durante um ataque de pânico
Quando você está no meio de um ataque, a única coisa que parece importar é fazer parar. Aqui está o que realmente funciona:
1. Lembre-se: vai passar
Repita para si mesmo: “Isso é desconfortável, mas não é perigoso. Vai passar em poucos minutos.”
Parece simples, mas é poderoso. O pânico se alimenta da ideia de que algo terrível está acontecendo. Quando você lembra que é temporário e não é perigoso, você diminui o combustível.
2. Controle a respiração
A respiração diafragmática é sua maior aliada:
- Inspire pelo nariz por 4 segundos
- Segure por 4 segundos
- Solte pela boca por 6 segundos
- Repita
Isso ativa o sistema nervoso parassimpático, que acalma o corpo. É biologia, não placebo.
3. Use ancoragem sensorial
Conecte-se com o presente usando seus sentidos:
- Olhe ao redor e nomeie: 5 coisas que você vê, 4 que você pode tocar, 3 sons que escuta, 2 cheiros, 1 sabor
- Toque algo frio: Coloque as mãos em água fria ou segure gelo
- Pressione os pés no chão: Sinta o contato com a superfície
Isso tira você da espiral mental e te reconecta com a realidade física.
4. Não fuja
O instinto é escapar da situação. Mas fugir ensina ao seu cérebro que aquele lugar/situação é perigoso. Da próxima vez, você terá ainda mais medo.
Tente ficar onde está (desde que seja seguro). Use as técnicas acima. Quando o ataque passar e você estiver no mesmo lugar, você ensina ao seu cérebro: “Eu sobrevivi. Não era perigoso.”
Tratamento: você não precisa viver assim
Ataques de pânico são uma das condições de saúde mental mais tratáveis. Sério. Taxa de sucesso é superior a 70-80%.
1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
É o tratamento de primeira linha. A TCC ensina você a:
- Identificar pensamentos distorcidos que alimentam o pânico
- Desafiar essas crenças
- Enfrentar gradualmente situações temidas (exposição)
- Desenvolver habilidades de enfrentamento
Estudos mostram que 70-90% das pessoas melhoram significativamente com TCC. E os resultados duram — mesmo anos depois.
2. Medicação
Pode ser útil, especialmente no começo:
- ISRSs (antidepressivos): Como sertralina, escitalopram. Ajudam a regular a química cerebral. Levam 4-6 semanas para fazer efeito.
- Benzodiazepínicos: Como clonazepam. Funcionam rápido, mas não devem ser usados longo prazo por risco de dependência.
Consulte um psiquiatra. A medicação funciona melhor quando combinada com terapia.
3. Mudanças no estilo de vida
- Exercício regular: Reduz ansiedade baseline e melhora regulação emocional
- Sono adequado: Privação de sono aumenta vulnerabilidade a ataques
- Reduzir cafeína e álcool: Ambos podem desencadear ataques
- Meditação mindfulness: Treina sua mente a não reagir com pânico aos sintomas físicos
O que NÃO fazer
- Não use álcool ou drogas para “acalmar”: Isso pode criar um ciclo de dependência
- Não evite todas as situações: Evitação reforça o medo
- Não fique pesquisando sintomas online: Isso alimenta a ansiedade de saúde
- Não se isole: Conte a alguém de confiança o que está acontecendo
Quando procurar ajuda profissional
Busque ajuda se:
- Você teve seu primeiro ataque de pânico (para descartar causas médicas e aprender a lidar)
- Os ataques são frequentes (mais de um por mês)
- Você está evitando situações importantes por medo de ter um ataque
- Sua vida profissional, social ou familiar está sendo afetada
- Você está usando álcool ou drogas para lidar
- Está desenvolvendo depressão ou pensamentos suicidas
Comece com um psicólogo especializado em ansiedade (de preferência que trabalhe com TCC). Se necessário, ele pode te encaminhar para um psiquiatra.
A mensagem final
Ter um ataque de pânico é uma das experiências mais assustadoras que você pode passar. Mas aqui está a verdade libertadora: não é perigoso. Você não vai morrer. Você não vai enlouquecer. Você não está perdendo o controle.
É seu corpo reagindo de forma exagerada a um alarme falso. E você pode aprender a desligar esse alarme.
Milhões de pessoas superaram ataques de pânico. Com tratamento adequado, você também pode. E você não precisa fazer isso sozinho.
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